Desde o início de nossa viagem na Austrália, Edu se mostrava curioso pela população originária do país. Eu, que já tinha passado uma temporada no país anteriormente e sentido essa mesma curiosidade, contava a experiência de ter ficado encantada com a cultura aborígene nas galerias, ateliês e festivais que fui, mas ao mesmo tempo assustada com a situação do alcolismo nas ruas das grandes cidades australianas. Mesmo sem saber exatamente o porquê, também lhe dizia para ter paciência, pois um encontro aconteceria na hora certa

Como a Austrália nos deu

o filme Alive

E du e eu somos casados, além de parceiros de trabalho. Trabalhamos juntos desde que nos conhecemos, em 2010, no jornal, ele como fotojornalista e eu como repórter de texto. Em 2012, quando estávamos começando a produzir vídeos, deixamos Florianópolis para viver um período como viajantes. O primeiro ano da viagem foi passado na Austrália, a maior parte do tempo em Byron Bay, na costa leste, estudando inglês, trabalhando, juntando dinheiro para os próximos destinos. Nosso último mês no país foi também nosso primeiro sem atividades pré-definidas, uma dávida que viagens proporcionam. Pegamos um voo para Perth, na costa oeste do país, com o intuito de chegar por terra até Broome, onde finalmente aconteceria o encontro. 

Em um site de caronas, acertamos o trecho inteiro com Clement, um engenheiro francês que tinha em um 4×4 antigo. Também iria nos acompanhar uma inglesa que morava em uma barraca em um parque nacional da Itália, fazia artesanatos e tocava violão na rua para viver. Ela havia estudado em uma grande universidade britânica e tinha grandes expectativas nos ombros, mas escolheu outra vida. Entre acampamentos, caminhadas pela natureza e longas conversas, Sara nos contou que, em Broome, encontraria com Lorna Kelly, uma líder aborígene de quem uma amiga havia lhe passado o contato. Edu sentiu o coração bater mais forte e falou para ela de sua vontade. 

Lorna me abraçou e disse: "Welcome home, sister"

Chegando em Broome, telefonamos para Lorna e marcamos uma conversa, na qual nos oferecemos para contar alguma história em vídeo que fosse relevante para a comunidade. Owen Torres, também um líder nativo da área de Broome, estava presente e olhou para Lorna. Os dois haviam pensado na mesma pessoa: Roy Wiggan, um ancião que guardava muito conhecimento e sofria com as mudanças na sociedade aborígene. No fim do encontro, emocionada, Lorna me abraçou e disse: “Welcome home, sister” (“Seja bem-vinda de volta à sua casa, irmã“, em tradução livre). 

Os últimos quatro dias que tínhamos na Austrália passamos com Lorna, Owen e Roy, visitando locais de importância para eles e gravando entrevistas. Foram horas de contação de histórias de Roy, um homem realmente sábio, duro, mas também amoroso. Foram surpreendentes as falas de Lorna e Owen, por sua lucidez e pela força de suas histórias. Sara foi a algumas gravações, Clement acompanhou um pouco o processo. Tamanha foi a conexão, que no dia de nossa partida estavam todos no aeroporto.

E Roy dizia: “Quero saber quando vocês vão voltar“. 

Assim, lançamos Alive, que você assiste abaixo.

Anita Martins (texto) é jornalista e Edu Cavalcanti (fotos) é fotógrafo, ambos são co-fundadores da Retrato

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