S omos animais contadores de histórias. Vivemos diariamente cercados por narrativas, em conversas, filmes e até sonhos. E tem sido assim ao longo da história da humanidade. De desenhos em cavernas a hieróglifos nas pirâmides do Egito, de músicas a encenações, de livros a narrativas multimídia. Produzimos imagens do tempo que viajam continentes, séculos, atravessam densas muralhas culturais, erigindo complexos edifícios feitos de memória e esquecimento, vozes e silêncio.

Histórias são formas de poder

Por meio delas, justificaram-se reinados, opressões, genocídios. Mas também foram conquistados direitos, desfeitas injustiças, pacificados conflitos.

O fato é que nem todas as histórias são contadas. As histórias dos homens são mais presentes que as das mulheres. As narrativas dos povos da escrita são mais ouvidas que as das culturas da oralidade. A saga do ocidente é dominante na produção histórica em relação à do oriente. A versão dos vencedores costuma sobrepor a dos vencidos.

“Até que os leões aprendam a produzir seus próprios historiadores, a história da caça continuará glorificando o caçador”, ilustra o escritor Chinua Achebe. Como apenas o caçador escreve as histórias de seus encontros com os leões, torna-se o herói em todas elas. Os leões, por outro lado, não têm história. E sua força e habilidade na caça não são suficientes para criar um equilíbrio de histórias.

Até que os leões aprendam a produzir seus próprios historiadores, a história da caça continuará glorificando o caçador

Chinua AchebeEscritor

Histórias do poder x poder das histórias

Parte significativa das histórias contadas nas últimas décadas corresponde de forma desproporcional aos anseios de uma parcela da população, objetivando o estímulo ao consumo e a preservação de valores dominantes como o patriarcalismo, a heteronormatividade, a branquitude, a cultura escrita. Essas narrativas ajudam a firmar estruturas favoráveis a determinados sujeitos em detrimento de outros.

O desequilíbrio de histórias consiste, então, no excesso de narrativas representando e identificando positivamente uma parte da população (em geral, elite e classe média brancas, com ênfase nos homens), em contraste com a ausência ou escassez de histórias que retratem outras parcelas da população (negros, indígenas, pessoas com deficiência, mulheres/mães, imigrantes, LGBTQ etc). O resultado é a distorção da imagem do outro, reforçando estereótipos e dificultando um olhar empático em direção aos problemas das populações que se encontram no polo negativo da equação.

O desequilíbrio de histórias tem abrangência mundial

Pesquisas realizadas em várias nações da Europa, na Nova Zelândia, na Austrália, na Nigéria e, sobretudo, nos Estados Unidos apontam a gravidade do problema entre diferentes grupos. Nos EUA, estudos comprovam que negros americanos são menos representados na mídia e, quando mostrados, costumam ser caracterizados como criminosos. Os impactos são variados e pesquisas recentes alertam, inclusive, para a redução da expectativa de vida de homens negros devido ao (não) lugar que ocupam na mídia. E há indícios de que o mesmo acontece com outros grupos.

A falta de empatia é a principal consequência do desequilíbrio de histórias

Pessoas empáticas costumam ter mais amigos e serem mais abertas, criativas e produtivas

Essa falta de empatia leva, segundo pesquisas, a comportamento problemático em adolescentes e até a negligência de pacientes por profissionais de saúde. Já pessoas empáticas costumam ter mais amigos e serem mais abertas, criativas e produtivas. Por isso, é tão importante estarmos atentos às histórias que escolhemos consumir.

A difusão da ideologia do consumo tem diminuído a quantidade de histórias diversas que chegam até nós. Os sistemas de recomendação de conteúdo, também focados em estimular o consumo (de conteúdo e/ou produtos), levam à formação do que Paul Saffo chamou de “personal medias”, ilhas de conteúdo constituídas a partir de fontes que apenas reforçam visões de mundo pré-existentes. Para Saffo, isso é uma espécie de dinamite social, pois conhecimento compartilhado e informação são a cola que mantêm as bases da sociedade civil, fazendo com que as pessoas mudem suas opiniões e simpatizem umas com as outras (SAFFO, 2005).

A miséria da empatia não está associada à miséria econômica

O desequilíbrio de histórias não opera a partir do pressuposto estereotipado de que as classes mais baixas são mais carentes que as elites. Todos precisam equilibrar seu consumo de histórias. Todos precisam desenvolver suas ferramentas empáticas. O acesso à informação e o direito à história são tão requisitados entre as elites quanto entre as populações carentes.

Precisamos, então, criar e consumir histórias mais diversas. E histórias de conexão, mais do que narrativas que segregam. O storytelling é, de acordo com estudiosos, um dos grandes remédios para a falta de empatia no mundo. As histórias funcionam como um canal que aproxima mundos distintos, sobretudo quando construídas a partir de elementos de apelo universal.

Só as histórias serão capazes de romper com o narcisismo estimulado pelas personal medias

P. J. ManneyAssociação Mundial Transhumanista

Para P. J. Manney, membro-diretor da Associação Mundial Transhumanista (H+), só as histórias serão capazes de romper com o narcisismo estimulado pelas personal medias e pelo hibridismo entre homens e máquinas num futuro próximo, pois através delas, poderemos experimentar a emoção do outro, sem perder a segurança simulada pela realidade virtual.

Esta é, portanto, a equação que nos ocupa: o desequilíbrio de histórias causa a invisibilidade social e a falta de empatia. E as histórias da diversidade emergem como uma solução possível e atraente, estimulando nossa capacidade de compreensão do outro e, consequentemente, nossa potência criativa e conectiva.

Marcelo Téo é historiador e co-fundador da Retrato

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