U m dos grandes desafios postos ao longo do século XX pela psicanálise e outras formas de terapia do “eu” é a busca do autoconhecimento pela introspeção, pelo mergulho para dentro de si.  

Muitas pessoas encontram portas abertas para se posicionar no mundo de acordo com suas descobertas. É um desafio intenso e difícil, complexo e inesgotável, que pode tomar uma vida inteira. A terapia, a meditação e a espiritualidade são caminhos possíveis, cada um com suas especificidades. 

Para outras, o desafio é convencer o mundo ao redor que o seu lugar não é aquele que a sociedade lhes impõe. Que as normas, ou melhor, que a normatividade não respeita sua essência e impede a realização dos seus sonhos.  

Em um momento de valorização da introspecção na sociedade, surgem vozes que nos chamam para uma mescla entre os mundos interior e exterior. Uma delas é de Roman Krznaric, autor de O poder da empatia, que fala do poder da outrospecção. O termo sugere que para descobrirmos quem somos ou o que fazer de nossas vidas é preciso conhecer a vida de outras pessoas, de outras civilizações.

A outrospecção é uma jornada para fora de nós mesmos, através da qual conseguimos ver mais, ouvir mais, sentir mais.

A grande questão é como alcançá-la. A vida contemporânea não necessariamente nos empurra em direção à diferença. Acabamos permanecendo numa zona de conforto, evitando surpresas através de ferramentas que simulam a vida no universo virtual.  

Somos empurrados a consumir histórias que repetem nossos padrões, diminuindo nossa capacidade de empatia.  

Sem empatia, nossa mente esbarra frequentemente na falta de alternativas para resolver problemas, seja na vida privada, seja no trabalho. Nosso olhar é preenchido por pré-conceitos que causam cegueira. Nosso corpo passa a evitar a proximidade, pois vai sentir dificuldade em se identificar com o outro. Nossa tendência à aventura é inibida pela necessidade de atender aos padrões de normalidade que firmamos ao repetir para nossa mente histórias parecidas com a nossa. O belo deixa de ser um mundo complexo de mistérios inexplicáveis para caber numa pequena caixa de expectativas.  

Estudos recentes no campo da neurociência têm mostrado a importância das histórias na criação de vínculos entre seres humanos. Especialmente num momento em que as pessoas não precisam mais confrontar a realidade de forma presencial. As histórias nos permitem alcançar personagens que na vida real encontram-se distantes. Como espectadores, relaxamos na experiência da diferença com a mente aberta e disposta. Sem julgamentos. Sem comportamento defensivo.

Com o storytelling, podemos experimentar a emoção da alteridade e da diversidade sem perder a segurança da individualidade.

É importante que tenhamos em conta que o exercício de buscar diversidade em nossa vida não representa apenas uma expansão do nosso universo moral. Mas uma rica possibilidade de ampliação de nossas metas e, consecutivamente, de nossas conquistas. Com uma vida mais plural, nos tornamos mais compreensivos e perspicazes, pois nossa experiência não será guiada por conexões repetidas, mas por uma complexa teia de possibilidades.  

Esse é o caminho da empatia, uma filosofia do bem viver que pode nos fazer mais criativos, mais produtivos, mais sociáveis, fortalecendo os laços humanos que fazem a vida valer a pena. 

As histórias estão no centro do processo de construção de uma vida e de um mundo mais empáticos. O consumo desequilibrado de histórias afeta nossa capacidade de compreensão do outro. E a diversidade de histórias nos habilita a viver a diferença de forma plena e confortável.  

As histórias são, ao final, parte da promessa de um mundo mais justo.

Contar histórias. Muitas histórias. Nossas histórias e histórias de outros. Reais e ficcionais. E o mais importante, histórias universais, que busquem conectar, pela diferença ou pela semelhança. Histórias feitas com o coração.  

Além de contá-las, é preciso espalhá-las por todos os lados, usando os mais diversos meios, na esperança de capturar a atenção daqueles que precisam delas para aprender a respeitar, a si e ao outro. Para que sejam capazes de dizer, em voz alta: 

Somos diferentes, mas eu consigo te entender.

Eu consigo te ver. 

Marcelo Téo é músico, historiador e co-fundador da Retrato.

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