O uvimos, no cotidiano, milhares de sons diferentes, muitas vezes sem notá-los. Vivemos na era da visualidade. O ponto de partida do nosso contato com o mundo é a imagem, a aparência.

Mas nossos ouvidos não são apenas estruturas acústicas acopladas ao nosso corpo para nos alertar de perigos externos. Ouvimos com todo o corpo. E para além dele. A música e as paisagens sonoras são faíscas que acendem a memória, provocando deslocamentos da atual rotina opressiva e veloz. 

A escuta estimula conexões com o instinto, com os sentimentos, com o coração. As imagens ganham vida via universo sonoro. A solidão é amenizada pelo barulho. Uma canção pode preencher os vazios deixados pela saudade. E uma voz familiar pode transformar o pavor em alegria e alívio. 

Ouvir é uma arte.

Curadoria por

Marcelo Téo

Músico e historiador

E com a playlist “O despertar do ouvido” queremos te ajudar a desenvolver sua capacidade de escuta e percepção do universo sonoro ao seu redor. São documentários e filmes de ficção sobre o brasil e outros lugares do planeta que enfocam o som, a música, a escuta, suas relações com a cultura, com a política, com o cotidiano.  

A escuta é um dos caminhos para a empatia. 

Para saber mais sobre o despertar do ouvido, leia nosso post sobre o assunto.

Esta playlist também está disponível em nosso canal do Youtube.

Siga a Retrato, viva a diversidade. 

1 – Charles Hazlewood: trusting the ensemble

TED Talk, 2011.

O maestro Charles Hazlewood fala sobre o papel da confiança na liderança de um conjunto musical ou, no seu caso, de uma orquestra. Ele mostra como funciona, enquanto ele conduz o Scottish Ensemble ao vivo no palco do TED. Ele também divide alguns vídeos de outros dois projetos que ele faz parte: a ópera “U-Carmen eKhayelitsha” e a ParaOrchestra.

2 – Sem nome, mas com endereço

Artista: Liniker e os Caramelows; direção: Sabrina Duarte, 2017

Uma canção emocionante, permeada por imagens sedutoras, numa narrativa arrebatadora. O/a artista, um/a cantor/a investe em uma identidade andrógina, desconstruindo os papéis imputados ao sexo masculino. Não se define como homem ou mulher. é um exemplo de pessoa não-binária. Mas prefere que lhe refiram pelo pronome feminino, que considera mais abrangente: “Dizer ‘ele’me deixa muito na caixinha do masculino”. 

3 – The Sound of Noise

Ola Simonsson, Johannes S. Nilsson, 2010

A narrativa gira em torno do agente de polícia Amadeus Warnebring, descendente de uma família musical distinta, mas com sérios traumas auditivos que fazem dele um inimigo da música e o som. O filme trata das suas tentativas de rastrear um grupo de seis percussionistas cujas performances públicas estão aterrorizando a cidade. Cada parte do filme e cada ato do grupo corresponde a uma parte de uma composição de vanguarda com quatro movimentos. A música é feita com objetos cotidianos, simulando uma fusão entre ritmo e vida muito interessante. Verdadeiro deleite para os olhos e ouvidos, The sound of noise é uma comédia com muita ação e uma abordagem criativa do universo sonoro.

4 – Once

John Carney, 2007 

Um musical moderno sobre um músico de rua e uma imigrante em Dublin, Irlanda. Através da música e de interpretações incríveis, uma história de amor é contada. O exercício de ouvir e a escuta carinhosa emergem através da alegoria da música. Composições, ensaios, gravações são ações que, no filme, simulam uma conexão real e profunda entre duas pessoas. 

5 – O som ao redor

Kleber Mendonça Filho, 2013

A presença de uma milícia em uma rua de classe média na zona sul do Recife muda a vida dos moradores do local. Ao mesmo tempo em que alguns comemoram a tranquilidade trazida pela segurança privada, outros passam por momentos de extrema tensão. Ao mesmo tempo, casada e mãe de duas crianças, Bia tenta encontrar um modo de lidar com o barulhento cachorro de seu vizinho. Mas não se trata de uma obra sobre crimes elaborados ou sobre relacionamentos individuais. É um filme sobre o que está a nossa volta, sobre ruas cada vez mais vazias e muros cada vez mais altos. Sobre câmeras de segurança, cachorros e, principalmente, pânico.O desenho de som do filme é profundamente original e sensível. Um convite para ouvirmos mais.

6 – O visitante

Tom McCarthy, 2007

Walter Vale é um professor universitário de 62 anos, que não tem um objetivo na vida. Solitário desde o falecimento de sua esposa, ele permanece na universidade em que trabalha e finge ser co-autor de livros que nem lê. Um dia é enviado para uma conferência em Nova York, já que a autora de um destes livros está impossibilitada de comparecer. Reticente a princípio, mas sem escapatória, Walter viaja. Ele resolve ficar em seu apartamento na cidade, o qual não visita há vários meses. Porém ao chegar descobre que o local agora abriga um casal de imigrantes ilegais, formado pelo sírio Tarek e a senegalesa Zainab. A falta de empatia inicial é revertida através da música e do ouvido de uma forma apaixonante e sedutora. 

7 – Sob o céu de Lisboa

Win Wenders, 1994

Philip, engenheiro de som, vai a Lisboa para ajudar o amigo Fritz a terminar seu filme. O misterioso desaparecimento de Fritz leva Philip a uma viagem de descobertas pela cidade, na qual se apaixona pelos sons e pela bela Teresa, vocalista da banda Madredeus. O reecontro com o amigo traz novas surpresas.

8 – A vida dos outros

Florian Henckel von Donnersmarck, 2007

Uma trágica história de amor estabelecida em Berlim Oriental, na qual a polícia secreta ocupa um posto de intensa vigilância. O capitão da Stasi, Wieler, é obrigado a seguir o autor Dreyman e mergulha cada vez mais profundamente na sua vida até chegar ao limiar de duvidar do sistema. Entre a vigilância dos sons e o silêncio do medo, tramas e dramas sucedem ao longo do filme.

9 – Frank

Lenny Abrahamson, 2014

É um desses filmes independentes muito especiais, do tipo que define seus personagens por suas patologias e/ou esquisitices. Baseado em uma história real, conta a história de uma curiosa banda de título impronunciável The Soronprfbs, composta por um tecladista suicida, um homem que só tem desejo sexual por manequins de lojas, um francês que não se comunica com ninguém, uma mulher com impulsos assassinos, um compositor que nunca conseguiu escrever nenhuma música e um homem que usa uma cabeça falsa o tempo inteiro, mesmo para comer, tomar banho e dormir. Este último é Frank, o líder do grupo. Fala sobre a estranheza da beleza lúdica, abrindo espaço para uma escuta mais diversa, imprevisível e, por isso, mais rica. 

10 – LFO

Antônio Tublen, 2013

Comédia, drama e ficção científica sobre um engenheiro de som amador que passa horas em seu porão cheio de fios e osciladores experimentando ondas sonoras. Como que por acaso, encontra uma frequência que lhe permite hipnotizar as pessoas, atraindo seus novos vizinhos para sua casa para atuar como sujeitos de teste para sua descoberta. Sob o controle de Robert, o casal é manipulado em jogos de role-playing cada vez mais elaborados que permitem que Robert se dedique às fantasias mais megalomaníacas. Mas quando as investigações sobre a morte suspeita de sua esposa ameaçam acabar com sua operação demente, o protagonista cogita usar seu avanço científico em uma escala muito maior. Uma reflexão interessante sobre o lugar do som nos jogos de poder que se dão no interior da cultura. 

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Até a próxima!

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