Paisagem sonora de Alive: In the shadows of Australia

A produção de Alive: in the Shadows of Australia representa uma espécie de gênese da Retrato. Foi produzido por Anita Martins e Edu Cavalcanti na região oeste da Austrália e finalizado com a participação de Marcelo Téo (paisagem sonora). E constitui a primeira parceria entre os três que, meses mais tarde integrariam uma equipe maior para filmar Welcome Home (a ser lançado), mais um documentário sobre a cultura e o ativismo aborígene na Austrália Ocidental. Ao final desta segunda produção firmou-se o desejo de fundar um ateliê dedicado a contar histórias de impacto, com foco no combate ao que hoje chamamos de desequilíbrio de histórias.

Na época das filmagens de Alive (2012), Edu estava fazendo sua transição do fotojornalismo para o vídeo. Anita, que vinha do texto, iniciava sua carreira como editora. Talvez por isso o áudio não tenha recebido, ao longo da captação, toda a atenção merecida.

“Tínhamos uma ideia de sua importância e, por isso, usávamos um microfone direcional Azden, modelo SMX-10, acoplado em um gravador zoom H2n. Mas tanto equipamento quanto conhecimento eram muito rudimentares”, afirma Anita.

Outra dificuldade é lidar com uma paisagem sonora ruidosa e falta de recursos tornaram o o processo ainda mais dificultoso. “A primeira entrevista com o ancião Roy Wiggan foi em uma praia movimentada, na qual passou um helicóptero e depois estacionou um caminhão, com aqueles sinais sonoros de ré. A segunda foi em uma praia bem tranquila, na qual se ouvia o mar e até a aproximação de um canguru. Mas logo chegou também um carro e em seguida uma família. E do caos sonoro retornou ao silêncio novamente”, lembra Edu.

“Ah, e na casa onde fizemos as entrevistas com Lorna Kelly e Owen Torres, tinha um aquário que, por motivos de sobrevivência dos peixes, não podia ser desligado”, complementa Anita.

Estas são informações relevantes, pois ainda que ressaltem as fragilidades da paisagem sonora do filme, apontam a necessidade de percebê-la com atenção. Ao consumir conteúdos audiovisuais muitas vezes colocamos a dimensão sonora num plano quase invisível, percebendo somente as faltas, as ausências. Mas a verdade é que o som é o elemento responsável, na maioria das vezes, pela imersão sensorial e cognitiva no universo visual.

 

A trilha sonora e o desenho de som (soundesign) são as formas de criar essas paisagens sensoriais que ambientam um filme. No caso de Alive, as trilhas sonoras cumpriram também a função de maquiar as falhas de uma captação de som deficiente.

“Mas a riqueza da história e a sensibilidade na captação das imagens possibilitaram um trabalho super envolvente. Acho que a trilha fez mais do que tapar buracos. Ela ajudou a dar dramaticidade e afeto às imagens”, comenta Marcelo Téo, responsável pelas trilhas.

Daniel Téo, da Sopro Records, fez a finalização de som (mixagem e masterização).

 

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