EMPREENDEDORISMO MATERNO E DIVERSIDADE

 In Canal AMa, Reportagem

.Para falarmos de empreendedorismo materno é preciso falar um pouco sobre ser mãe.

A maternidade é um processo transformador. Um cruzamento de morte e nascimento para a mulher. Morre o “eu” anterior para nascer uma mãe. O olhar sobre o mundo passa a estar atrelado a uma nova vida. A percepção do tempo muda radicalmente. Uma guerra entre a vida que ficou para trás e o presente da maternidade se instaura no processo doloroso do puerpério. 

A compreensão dessa fase para nós, homens, é complicada. E muitas vezes acaba em conflitos, em violência, e até em separação. Não vivemos nada parecido.  

A educação machista não nos preparou para sermos compreensivos, para vestirmos os sapatos de uma mãe.  

Empatia não foi prioridade na educação doméstica da nossa geração. Isso é visível no momento pelo qual passa nosso país. Nesse cenário, talvez sejam as mulheres – e a diversidade que cabe dentro dessa comunidade – quem mais tenham a ensinar sobre esse conceito. Mães em especial. Afinal, elas estão sujeitas a viver a vida de outra pessoa. Nos primeiros nove meses de vida, o bebê não consegue identificar as fronteiras do seu próprio eu e o da mãe. É uma fusão. Linda, com certeza. Mas também dolorosa, sofrida, sem pausa ou férias. 

Mesmo pais participativos têm dificuldade para entender a viagem espiritual da maternidade.  

Estar presente é diferente de estar física e emocionalmente conectada à criança, a ponto de compartilhar com ela, mesmo sem querer, todas as angústias, as dúvidas, a raiva, o amor, a exaustão.  

É cada vez mais comum mães descobrirem, seja via terapia, seja via experiência da vida, que as dificuldades enfrentadas pela criança – no sono, na amamentação, no desenvolvimento físico e emocional – são, na verdade, frutos de conflitos internos vividos pela mulher e divididos de forma inconsciente com os bebês. 

A maternidade não é uma prisão.  

É uma habilidade sensorial, um poder que, ao fazer das mães verdadeiras heroínas, delega grandes responsabilidades, que geram a melancolia tão comum aos super-heróis das histórias em quadrinhos. 

A ruptura com o passado, quando assumida e não jogada para debaixo do tapete, pode gerar transformações e crises profundas. Especialmente na vida profissional. Seja pela frieza machista do mercado de trabalho, seja pelos novos desejos maternos de busca por satisfação profissional, mulheres de todo o mundo têm buscado o empreendedorismo como forma de reinventar a relação com o trabalho e, ainda, ajudar a solucionar problemas diretamente ligados ao exercício da maternidade.

O tema vem sendo discutido. Comunidades e redes de apoio à maternidade vêm sendo criadas. Mas da mesma forma que acontece com o parto humanizado ou com a alimentação saudável, o acesso ainda é restrito.  

Falar sobre inclusão e diversidade no universo do empreendedorismo materno é, portanto, urgente. 

Para estimular um pouco esse processo, a Retrato entrou em contato as fundadoras da Conexão Pandora, um coworking para pais e mães. Conversamos com Camila Vione (35) e Fernanda Steinbruch Araújo (35) a respeito do cenário atual para mães empreendedoras e sobre sua iniciativa, a qual tem oferecido oportunidades de formação e apoio para mulheres que, como elas, buscam harmonizar trabalho e maternidade. 

 

©BabuskaFotografia

Retrato: Não faz muito tempo que o termo “empreendedorismo materno” surgiu, embora atividades empreendedoras causadas ou relacionadas diretamente à maternidade já fossem praticadas, de alguma forma, por mães de outras gerações. Na visão de vocês, o que há de novo no momento em que vivemos e em que medida isso expande as oportunidades disponíveis para mães? 

Cada dia vemos mais mães buscando exercer uma maternidade ativa e tal função desperta a relação com sua essência. Isso leva muitas mulheres após a maternidade buscarem atividades que fazem sentido nessa nova etapa, mais conectada com seu propósito. Assim, empreender começa a ser uma possibilidade. A conquista das mulheres por um espaço no mercado de trabalho em crescente expansão e o aumento de ações que favorecem a compra de pequenos produtores incentivam o crescimento do empreendedorismo materno. Esta combinação, junto aos grupos, cursos e redes de apoio focadas na maternidade e em como empreender nesse momento de nossas vidas, têm ajudado a fortalecer e disseminar iniciativas movidas pela maternidade. 

RetratoOs números apontam para uma presença feminina muito forte no universo do empreendedorismo: mais de 50% das empresas abertas no Brasil atualmente são criadas por mulheres. Como vocês enxergam essa mudança? Estariam as mulheres mais predispostas a humanizar o mercado? Como? 

Vivemos uma crise de humanização em todos os setores, um reflexo de uma sociedade vinculada a realização externa e com pouco incentivo para o autoconhecimento. Talvez as mulheres estejam mais atentas as necessidades dos outros, mais perceptivas e, empreender está muito ligado em suprir uma necessidade né? 

Lembrando que humanizar é que não está ligado a nenhum gênero e sim a condição de ser humano. 

Retrato: A Conexão Pandora tem articulado num mesmo espaço uma série de soluções que respondem às necessidades do universo do empreendedorismo materno: coworking, cursos, rodas de conversa e workshops voltados tanto para o empreendedorismo quanto para a parentalidade, a formação de comunidades e redes de apoio etc. Vocês podem falar um pouco sobre como funciona, quais áreas a empresa atua ou quer atuar, como pretende se expandir e levar a solução para mais pessoas? 

Nosso propósito está relacionado à facilitação da conexão entre mães e pais com seus filhos, consigo mesmos e com a vida profissional e social. Estamos hoje numa casa no bairro Campeche, em Florianópolis-SC, onde temos um espaço para realizar tudo isso. Nosso modelo de negócio é um coworking onde pais e mães, através de uma mensalidade, podem trabalhar ao lado de seus filhos, que brincam com nossas cuidadoras. Realizamos cursos e oficinas com parceiros dentro deste campo, onde não só atendemos nossos coworkers como também pais e mães interessados, que podem vir com seus filhos. 

Atuamos nas esferas do empreendedorismo, do autoconhecimento e da maternidade. A partir desses tópicos desenvolvemos nossas ações. Acreditamos que espaços como este podem existir em todo lugar, mas sabemos que para a sustentação de um espaço físico precisa haver uma rede de apoio, que no nosso caso é o clube pandora, um clube de mães empreendedoras que nasceu dois anos antes da sede. 

Então para nascer uma Pandora, antes precisam nascer vínculos entre mães e uma boa rede de apoio. Percebemos que é nosso papel: apoiar e fomentar esses grupos, para que a partir deles possam surgir novos espaços. 

©BabuskaFotografia

RetratoA febre do empreendedorismo materno tem sido alvo de críticas em dois sentidos: o primeiro, mais corrente, adverte sobre a ilusão do tempo livre e da vida mais tranquila, tendo em vista as dificuldades inerentes ao ato de empreender. A segunda – e mais delicada – advertência diz respeito à falta de diversidade nesse universo. As comunidades de mães empreendedoras ainda são ocupadas majoritariamente por mulheres brancas, de classe média, heterossexuais, jovens. Vocês conseguem enxergar saídas esse problema? Existem medidas previstas no Pandora nesse sentido? Se não, gostariam que tivesse? 

 Sim, esta é uma realidade. Mas ela pode ser mudada. Porém precisamos nos organizar melhor. Hoje empreender é um privilégio infelizmente, pois existe um tempo de colheita e uma dedicação para a coisa decolar. Sabemos também que este caminho não é para todas, há um perfil. Pensamos que para empreender precisamos de boas ideias, conhecimento de mercado, contatos, recursos e muito esforço, disposição e perseverança. Uma mistura de mente, espírito e força.  

A Pandora tem apoiado a formação e iniciação ao empreendedorismo. Em parceria com a Aliança Empreendedora, oferece cursos com valores muito baixos. O Clube Pandora também tem essa intenção de fomento a estas mães. Realizamos atividades gratuitas, nos reunimos mensalmente para apoiar os negócios uma das outras, dar ideias e soluções. 

Sonhamos com a possibilidade de uma cooperativa de crédito solidário para mulheres e estamos buscando aliados para realizar esse sonho. 

No quesito impulso interno é algo que envolve, maturidade, discernimento e autoconhecimento, pois sabemos que empreender é uma jornada longa e cheia de desafios. 

Nós enquanto rede de apoio estamos abertas para receber e conversar com qualquer uma que esteja disposta a empreender. E buscaremos apoiar de alguma forma. 

 

O tema do empreendedorismo materno está aberto ao debate e contamos com vocês para aprofundá-lo. 

Assistam nossa série Ateliê Materno e conheçam a história de Bruna, Carol e Júlia, três mães inspiradoras que têm se aventurado a empreender juntas. Acompanhem seus dramas, suas lutas e suas vitórias nos quatro episódios que compõem a série.

Recommended Posts

Deixe um comentário