Tecnologia em 3 Tempos: futuro, diversidade e inclusão

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Por que falar sobre tecnologia e inclusão? Porque esse é um dos grandes desafios do século XXI: criar possibilidades para que nosso futuro se desdobre em possibilidades de superar a desigualdade e a exclusão social. Muito tem sido feito nos últimos anos em prol dessa causa. Iniciativas têm se dedicado quase que integralmente a dar acesso a determinados serviços para parcelas da população que, pela via das políticas públicas, não conseguem usufruir de ferramentas consideradas básicas à existência no mundo contemporâneo: saúde, educação de qualidade, alfabetização digital, saneamento, habitação, acessibilidade etc.

A lista é longa. E não são poucas as startups dedicadas à resolução de problemas sociais que limitam o acesso a serviços básicos através de novas tecnologias. Não há dúvida sobre o valor dessas iniciativas. Afinal, a tecnologia consiste essencialmente em desenvolver ferramentas dedicadas a resolver problemas da vida em sociedade. 

Contudo, no mundo contemporâneo, onde novas tecnologias tornaram-se uma espécie de motor do sistema econômico, político e cultural, essas ferramentas passaram a não mais apenas resolver problemasLeia mais…

Tecnologias também criam problemas.

Que podem ser resolvidos com outras tecnologias. Nesse cenário, não basta lidarmos com uma ideia de inclusão genérica, onde a tecnologia é apenas um meio. Incluir significa também formar novos produtores, tendo como ponto de partida o critério da diversidade.

O que isso significa? Significa, primeiro, considerar outros parâmetros culturais na construção de soluções. O que a experiência de povos originários, de populações periféricas ou marginalizadas tem a ensinar? Significa também incluir esses sujeitos na comunidade de produtores de tecnologia, admitindo, assim, que a diversidade cultural é condição fundamental à nossa sobrevivência, à nossa convivência harmônica com o meio-ambiente e com outros povos. Significa, ainda, compreender a invenção tecnológica dentro de um espectro temporal mais amplo, incluindo não apenas o futuro, mas também o presente e o passado. 

Aceitar o conceito de tecnologia em três tempos – o futurismo e o mundo digital, o presente e a inovação social, o passado e a ancestralidade – implica em abolir hierarquias culturais e materiais, rumo a uma prática criativa dedicada essencialmente a melhorar a vida em sociedade, acolhendo as mais diversas matrizes de racionalidade, para além da ocidental. 

A relação direta entre diversidade e inovação vem sendo explorada nos mais diversos segmentos, ainda que de forma tímida. A NASA tem investido em metodologias como o crowdsourcing para auxiliar na resolução de problemas complexos, abrindo desafios para a comunidade externa.

Muitas vezes as respostas aos problemas mais difíceis vêm de pessoas que não tem qualquer experiência no campo de pesquisa em questão.

Tal constatação precisa ser percebida não apenas como uma oportunidade para tornar mais eficazes os times de inovação de nossas empresas, mas, sobretudo, como um caminho para alcançar o bem-estar social de forma exponencial. Identificando demandas primárias diversas com empatia e agregando sujeitos plurais ao processo de criação e construção de novas tecnologias, criaremos espaço para mudanças profundas e democráticas. 

 

Para transcender o nível da abstração e falar de ações práticas, entrevistamos Geovana Madeiro Narcizo, uma das fundadoras do Banco do Tempo Florianópolis, iniciativa que vem crescendo e transformando o mundo ao redor sem fazer barulho. Conversamos sobre tecnologia, economia, diversidade e sobre a vida. Segue um resumo do papo, que durou cerca de duas horas. 

 

 

Giovana, o que você entende por tecnologia e, na sua opinião, o que define uma tecnologia de impacto social?

Tecnologia são as ferramentas que nos fazem humanos. Essa ânsia que nós temos de criar instrumentos para facilitar processos. Desde sempre essas ferramentas são tecnologia. Hoje em dia a gente tem isso, de que tecnologia é só tecnologia digital, excluindo todo o resto, todos os outros tempos dos quais você falava. Acho que esses três tempos estão o tempo todo aqui, agora. Tudo que estamos vivendo, a presença do passado, as tecnologias do futuro brotando do presente.  

E as tecnologias inclusivas são justamente as que abrem espaço para que as pessoas colaborem com seus saberes. A NASA, por exemplo, tem espaços de colaboração com a sociedade civil em diversas frentes. Isso é inclusão. As pessoas só se sentem dentro quando colocam energia para participar. 

O Banco do Tempo é um caso interessante de convivência de temporalidades: o escambo, que é altamente ancestral; as tecnologias do presente, como as planilhas e toda a parte organizacional; propondo lógicas que certamente farão parte do futuro.  

Mas vale lembrar que o que nós fazemos, através destas tecnologias, é garantir que os processos aconteçam. O resto é com as pessoas: as relações, os eventos, a criação, os projetos sociais e até as inovações que surgem com frequência, seja na forma de realizar as trocas, nas ofertas, na valoração e, principalmente, na comunicação, que talvez seja nosso maior desafio. 

 

Você poderia falar um pouco sobre o Banco do Tempo? Que problemas o Banco propõe resolver? 

A fachada do Banco do Tempo é promover acesso a recursos que estão o tempo todo disponíveis e ao mesmo tempo as pessoas não podem acessar. Tanto produtos, como uma marmita, quanto serviços diversos, como companhia para passear na praia ou cafuné. Esse é um exemplo de serviço que as pessoas não pagariam para ter, mas não deixa de ser um recurso valioso.

Nós nos propomos a promover esse fluxo de trocas por meio das horas, sem dinheiro envolvido na negociação. As pessoas se disponibilizam a realizar esse tipo de transação. O desafio desse sistema é justamente as relações, a empatia, a nossa capacidade de se conectar. Temos sucumbido por conta da falta desse bem tão valioso e pouco valorizado, que é a conexão entre as pessoas. Os números de suicídios e pessoas com depressão são assustadores. Esse vazio vem matando mais do que as guerras. Isso é absurdo. E não é lavado em consideração.

 “Estamos pobres de conexão humana”.

Embora isso não esteja no modelo de negócios do Banco do Tempo, é o efeito que ele traz para pessoas. Elas abrem espaço na sua vida para a entrada de outras pessoas. Isso abre um campo de possibilidades que vai além do comercial. Que vai para o pessoal, que permite gerar empatia, novas ideias, novos projetos, novas parcerias. Inovação social na sua essência. 

 

Um dos impactos mais assustadores do Banco, para quem trava o primeiro contato, é a equalização (ou o achatamento para alguns) de valores entre as mais diferentes profissões. Um médico e um jardineiro, um professor e um aluno, um engenheiro e um pedreiro podem oferecer serviços por um valor comum: as horas de trabalho. Isso pode acarretar uma implosão do sistema meritocrático no qual vivemos. Como esse debate tem ocorrido entre adeptos e críticos da iniciativa? 

Vou falar aqui de opinião pessoal. Existem muitas ideias a respeito do tema dentro do Banco. Não no que diz respeito às horas. Isso é assim e ponto. Não tem discussão do por que é assim. Nossa proposta é acolher pessoas que já estejam de acordo com esse valor. Pois se para você parece justo, para muitos parece extremamente injusto o fato de alguém que estudou oito anos receber o mesmo por hora de trabalho que alguém que não foi para a universidade. Essa é a regra do jogo no Banco. Quem quer brincar já aceitou que é assim.  

Sobre a meritocracia, se eu fosse responder essa pergunta quando criei o Banco de Tempo com outro amigo há três anos eu diria: “É isso! Vamos derrubar o sistema meritocrático!” Hoje em dia minha postura está embasada numa observação mais sistêmica dos processos. E eu vejo que é uma opção, um caminho que vem se afirmando. São mais de 5 mil inscritos que, de alguma forma, acreditam na proposta e concordam com os valores, mas que, em sua maioria, ainda trabalham no sistema “normal”. Então, existe espaço para ambas as propostas.  

Temos a possibilidade de acessar esses recursos. E muitas pessoas, como eu, já vivem praticamente só do banco de tempo. Isso implica em práticas de consumo reduzidas, mais conscientes. Mas ao mesmo tempo, não estamos nem cá nem lá. Não estamos caminhando para um mundo regulado apenas pelo modelo do Banco do Tempo. E nem apenas para o capitalismo do consumo desenfreado. Estamos caminhando para um ambiente mais saudável, de maior equilíbrio. O que nós, do Banco do Tempo, queremos é fazer pressão por um desenvolvimento sustentável, pela colaboração, pelo consumo mínimo.  

Estamos num momento de transição. Continuamos trabalhando por dinheiro e vendendo nossas horas por “x” reais. O Banco do Tempo ajuda a abrir a mente para permitir que pessoas dos mais diferentes segmentos sociais consigam vislumbrar outras possibilidades de ocupação e valoração do seu tempo, criando acessos que, fora dessa estrutura, parecem impensáveis. Há uma revolução na economia, da qual o Banco faz parte. Já está acontecendo em diversos setores, inclusive na economia acadêmica. Essa revolução diz respeito ao reconhecimento do valor das coisas que não são valoráveis em dinheiro.  

Na economia patriarcal, valoramos apenas o que gera dinheiro.

Fazer ações sociais para a sua comunidade, cuidar de um filho em tempo integral, cuidar do nosso corpo e nossa saúde: nada disso é valorado. Acredito que um modelo econômico matriarcal pode mudar esse enfoque. Promover espaços de conexão entre as pessoas deve sim compor o sistema de valores econômicos que regem a vida em sociedade. Esse é o olhar que nós queremos trazer. E isso tem sim valor econômico real. Se formos valorar as trocas do Banco de Tempo Florianópolis, já ultrapassamos a marca dos 2 milhões de reais.  

Então é isso: a meritocracia existe e segue prosperando. E não vamos derrubar isso logo. Mas estamos trabalhando no invisível. O futuro é imprevisível. Estamos lançando sementes do que achamos que é válido, no sentido do que tem valor. 

 

Como vocês do banco do tempo lidam com a questão da inclusão e da diversidade? Qual o perfil das pessoas que participam? Existe algum projeto para levar essa solução para comunidades onde o impacto da meritocracia é mais agressivo e devastador? 

Existe um recorte dentro do Banco de pessoas privilegiadas, pois são pessoas que conseguem manobrar seu tempo de forma mais flexível, tem mais tempo livre. Não necessariamente quem tem mais dinheiro, pois muitas vezes essas pessoas trabalham demais e não conseguem participar. 

A maioria dos participantes é composta por mulheres (cerca de 68%). Na administração, 100% são mulheres. Nos eventos e encontros, cerca de 90% são mulheres jovens entre 23 e 45 anos. Além disso, o próprio sistema de funcionamento do Banco, via redes sociais, traz um recorte, pois tem a ver com acesso. 

Por outro lado, não há uma integração, por exemplo, com públicos universitários. Tampouco há qualquer aproximação com a universidade. Mas muitas pessoas que estão à margem, de uma classe média baixa, já tem comparecido de forma efetiva. Todos têm celular e podem participar. Ainda não temos estatísticas precisas, mas é visível essa presença nas trocas efetuados no Banco. 

Com relação à inclusão, temos um fundo de investimentos em qualquer tipo de projetos sociais que as/os associadas/os queiram fazer dentro de suas comunidades. O pré-requisito é tempo e disposição das pessoas para fazer com que esses projetos aconteçam. E tem muitos projetos em andamento. Tem gente fazendo coisas incríveis – yoga nas escolas públicas por exemplo. Elas chegam ao banco buscando a continuidade de suas ações, até então feitas de forma voluntária e não remunerada. Assim elas conseguem ganhar horas, o que lhes dá mais ânimo para seguir com suas causas. Fazemos muitas parcerias com associações de moradores, pois não temos ambiente físico, apenas um espaço virtual. No Conselho Comunitário da Fazendo do Rio Tavares, por exemplo, temos mais de 100 cursos gratuitos em andamento, que acabam convertendo pessoas para o Banco. Aulas de línguas, de dança, artes marciais etc. Formamos pessoas para novas profissões. 

Mas isso ainda tem um viés do tipo: “Estamos oferecendo coisas para a comunidade”. Inclusão de fato é quando a comunidade começa a transacionar, a integrar de fato o sistema do Banco. Então tentamos fazer essa “conversão”, esse incentivo para participar da solução.  

 

Na sua opinião, o que falta para reconhecermos esses outros saberes (indígenas, periféricos, fora da bolha da ciência e da tecnologia tradicional) como saberes tecnológicos, capazes de trazer soluções disruptivas ao sistema vigente no ocidente?  

Vivemos um cenário de tragédia do sistema educacional. A obsessão por seguir um padrão que está se tornando obsoleto. Há uma hierarquia dentro da academia que é de fato excludente. Dou palestras em escolas públicas e fico assustada com a parcela de jovens deprimidos, que se sentem incapazes, sem talento.  

Por outro lado, existe um movimento rumo ao consumo de outros saberes – indígenas por exemplo. É preciso fazer crescer o interesse em “comprar” esses saberes. Esse movimento existe e precisa ser expandido. Nós precisamos investir nosso dinheiro, nossa energia e nossa atenção no que acreditamos, ajudando a encorpar esse movimento, a criar sistemas para que esses saberes de fato ampliem o seu valor. 

 

Quais os caminhos possíveis para a exponencialização dessa solução? Ou seja, que caminhos tecnológicos o Banco do Tempo pode ou deve seguir na sua opinião? 

É bem empática sua pergunta, quando questiona se o banco deve ou não se desenvolver rumo à exponencialidade. Num ambiente de inovação tecnológica, essa pergunta não seria feita. É importante termos consciência que o Banco do Tempo envolve valores. Entrar nesse sistema implica em aceitar esses valores. 

Nós estamos caminhando para um mundo de maior liberdade econômica via tecnologias: as cripto-moedas, o blockchain. E o medo vem junto com essa liberdade extrema.  

O que eu visualizo é uma plataforma onde as pessoas possam trocar horas de maneira livre. Hoje em dia a tecnologia do Banco ainda exige muito o fator humano. Ainda fazemos as coisas manualmente. Não é automatizado. Temos muitos mediadores. O futuro exponencial é a plataforma, a automatização das trocas. Mas para esse modelo fluir, precisamos canalizar a energia humana na promoção de valores: confiança, consumo mínimo, essência da moeda “tempo”. Expandir significa confiar na comunidade para que novos formatos de transações não acabem destruindo essa essência. Não sei se isso é controlável. Talvez seja o meu ego querendo isso (rs). Mas o fato é que para que esse modelo não seja englobado pelo consumismo, será preciso muito cuidado com o fator humano. 

  

Como você enxerga o banco do tempo daqui a 5 anos? 

O banco do tempo será uma das possibilidades de ação econômica, acredito.  

Vamos viver um futuro de muita diversidade. Algo que é fundamental para a saúde de qualquer sistema.

O que traz a doença, a crise, a quebra, o conflito, é o fato de nos apoiarmos em apenas um sistema: o sistema econômico baseado no dólar, por exemplo, que leva à falência coletiva. Eu penso no Banco do Tempo como uma das ferramentas disponíveis. O compartilhamento de recursos – sejam eles materiais (espaço, ferramentas etc.), ou não (o tempo por exemplo) –, a valoração de ações que extrapolam a correspondência monetária via cripto-moedas, são possibilidades que devem se abrir cada vez mais nos próximos anos. 

O que teremos é um ambiente de diversidade econômica muito grande. Por isso eu não visualizo mais o Banco do Tempo como algo que vai substituir o sistema vigente. Caminhamos mais para a diversidade do que para o monopólio de um sistema econômico. O dinheiro é uma crença. As pessoas estão começando a acreditar em outros sistemas. Isso é futuro. Isso é presente. No Brasil isso ainda é algo novo. Existe apenas um banco de cripto-moeda, com sede em Florianópolis. 

“O meu real desejo é que o Banco do Tempo deixe de existir, que caminhe para a sua extinção”.  

Que deixe de ser necessário pelo fortalecimento da confiança no interior das redes, algo que está em contínua expansão: amigos, vizinhos, amigos dos amigos, pessoas que se conectam via redes sociais. O futuro desejável seria não precisar contabilizar essas horas e confiar na abundância da rede. A evolução foi tão grande em 3 anos que eu vejo isso como uma possibilidade. 

 

Por que integrar essa rede? 

– Para ter acesso a uma infinidade de talentos (serviços ou produtos) 

– Serviços convencionais (mudanças, alimentação, atividades físicas, jardinagem, atividades domésticas, produção de conteúdo etc.) 

– Companhia para caminhar na praia 

– Passeio com animais de estimação 

– Marido de aluguel 

– Cafuné 

– Massagem tântrica 

– Uma infinidade de terapias holísticas 

– Você também pode gerar demandas (preciso de alguém para…) 

– Pode integrar uma rede diversa de mais de 5 mil pessoas ativas (24 mil pessoas na comunidade) 

– Oferte seus talentos, inclusive fora do seu campo profissional, criando a oportunidade de se sentir útil e desenvolver novas habilidades 

– Desenvolva projetos de forma colaborativa, ampliando laços e conexões 

– Estabeleça contato com uma ampla diversidade cultural 

 

O que você pensa sobre o assunto? Compartilhe com a gente sua opinião. 

E confira no site da Retrato o curta-metragem “Tempo de mudança”, sobre o banco do tempo. Lá você também vai encontrar playlists e imagens dedicadas a discutir o tema da semana: a tecnologia em 3 Tempos.  

Retrato, histórias que conectam. 

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